A forma como a crise atingiu o volume de fusões e aquisições e a recuperação brasileira
A crise financeira internacional teve início em 2008 e seus reflexos foram mais sentidos no Brasil no início de 2009. Durante esse período, como ficaram as fusões e aquisições brasileiras? Houve um aumento ou uma paralisação nos processos?
O CRC SP Online conversou com o sócio da PricewaterhouseCoopers Alexandre Pierantoni, coordenador da equipe que, mensalmente, produz relatórios referentes às fusões e aquisições divulgadas no País.
A crise ampliou ou reduziu o número de fusões e aquisições no Brasil?
Passado este ano, o que vimos é que o Brasil tem um número ascendente de transações divulgadas. Estamos num patamar de crescimento nos últimos anos. No primeiro semestre de 2008, continuávamos com um volume bom de transações. A partir do meio do ano, a crise começou a afetar esse mercado. O último quarto do ano foi muito agitado e chegamos a cair 40% com relação ao mesmo período de 2007.
No segundo trimestre de 2009, houve uma recuperação no volume de operações. Hoje estamos com um volume 18% menor do que no mesmo período do ano anterior, mas o mercado brasileiro já se recuperou.
Qual é a perspectiva para os próximos meses?
Não tenho dúvidas de que estamos em uma curva ascendente que fará com que cheguemos ao mesmo patamar do ano passado com cerca de 640 transações. No ponto de vista econômico, é um momento de recuperação brasileira, antes mesmo da recuperação dos demais países, e isso está sendo analisado.
Agora, em termos de balanço, devemos fechar com o mesmo volume do ano passado. Não crescemos, mas é um resultado muito positivo em relação ao que o mundo está vendo. Estamos estáveis. Isso ocorre por diversos fatores, dentre eles, a atratividade do Brasil. Fomos muito menos impactados e conseguimos sair mais rápido da crise do que outras nações.
É interessante analisar esse histórico. Em 2006, o Brasil muda de patamar de volume de transações. Saímos de uma média de 380 transações por ano (de 2002 a 2005) para uma média de 640 (de 2006 a 2008).
Ao que se deve essa atratividade brasileira e quais são os outros fatores responsáveis pela estabilização?
O Brasil sai fortalecido da crise. A forte atratividade vem com o governo atuando de forma ativa e proativa em relação ao fortalecimento das empresas. Há todo um contexto interno, um espaço para crédito (financiamento de carros ou de imóveis) e um grande aumento de consumo. Além disso, temos uma pauta diversificada de exportações.
Existe a visão de que, durante períodos de crise, algumas empresas encontram-se fragilizadas, enquanto outras, com dinheiro em caixa, podem ir às compras. Dessa forma, não seria correto afirmar que a crise gera uma onda de fusões e aquisições?
Esse raciocínio faz sentido. As fusões são orientadas por motivos como atratividade e, mundialmente, por empresas que chamamos de stressed, que são aquelas frágeis e que estão vulneráveis para aquisições. A questão, internacionalmente, continua sendo o movimento de grande cautela. A sensibilidade ao risco continua existindo. Não estamos no momento que estávamos anos atrás. Os americanos e os europeus, por exemplo, estão mais cautelosos e não estão dispostos ao risco.
Observando os movimentos e recuperação dos mercados, a recessão não terminou e a velocidade de recuperação ainda é incerta, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Os investidores estratégicos já estão se movimentando e o crédito está voltando internacionalmente para as empresas que veem, agora, boas oportunidades para se estabelecerem em países onde ainda não atuam, aumentando o portfólio.
Esse é um fator que ocorre em todo o mundo?
Cada mercado reage de um jeito. O Brasil reage de forma diferente, assim como a China, que já voltou aos níveis de consumo e que tem um mercado potencial enorme. Hoje, quando falamos em mercados emergentes, os investidores olham a China e o Brasil, que são grandes mercados de crescimento.
Nesse último ano, quais setores sofreram mais fusões? Por qual motivo?
Há um histórico. Até o momento, em 2009, das 378 transações, a ordem de destaque dos setores é a seguinte: alimentos (10%), TI (9%), financeiro (8%), serviços (7%), mineração, química e petroquímica (6% cada) e varejo, construção e transporte/logística (5% cada).
O que falar sobre esse novo tipo de investimento denominado private equity?
Acredito que temos que dar especial atenção ao investidor de private equity, que tem crescido muito no Brasil. Há três anos, a representação desses investidores era de 15%. Em 2008, subiu para 20% e, hoje, chega a cerca de 25% das transações. O investidor private equity cresce, pois é capitalizado e não utiliza, no Brasil, instrumentos de dívida para fazer transações. Assim, o País tem se fortalecido e esse tipo de investidor está vindo fortemente.
Quando duas empresas se unem, há um complexo processo de transição que envolve desde a diretoria até o departamento de TI. De que forma essa junção atinge os Contabilistas responsáveis pelas empresas?
Acredito que o Contador é muito importante, principalmente na parte de controle de Governança Corporativa e transparência de relatórios. São analisados os procedimentos de Contabilidade e como a empresa se instrumentaliza no dia a dia da sua gestão. São extremamente importantes a Lei nº 11.638/07, que traz impacto na Contabilidade, e toda a incorporação ao IFRS (International Financial Reporting Standards) no contexto brasileiro, que também traz grande impacto na gestão e no controle das empresas.
Além disso, em uma fusão, temos toda a questão da integração da Contabilidade e equalização de procedimentos e sistemas. São desafios que, hoje, o Contabilista enfrenta.
Essas transações são fortemente baseadas na Contabilidade das empresas. É a Contabilidade que reflete as alterações e o sucesso das empresas. Toda a parte da confirmação de informações está fundamentada na Contabilidade. Há o due diligence, que traduziríamos como a análise dos números contábeis e dos riscos. Mas isso não é uma Auditoria, não devemos confundir.
Então, a Contabilidade das empresas, juntamente com a apresentação dos dados financeiros, pode paralisar transações?
Com certeza muitas negociações param aí. É algo importante, o investidor pode levantar um volume de contingência e de riscos da empresa bastante grande por meio da Contabilidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário